Metabolismo e ciclos: montando o quebra-cabeça da Síndrome dos Ovários Policísticos

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Já parou para pensar por que, para algumas mulheres, perder peso parece uma batalha perdida contra a própria biologia, enquanto a menstruação decide aparecer apenas quando bem entende? Se você se identifica com esse cenário, ou conhece alguém que vive essa montanha-russa, saiba que não se trata de falta de força de vontade. Estamos falando de um dos quadros mais complexos e fascinantes da ginecologia endócrina: a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP). O grande erro, que vejo com frequência no consultório, é tratar a SOP como se ela fosse um problema restrito aos ovários. O nome, para ser sincero, é até um pouco enganoso. Aquelas pequenas imagens que aparecem no ultrassom não são cistos no sentido clássico da palavra; são apenas folículos que tentaram amadurecer, mas ficaram “estacionados” no meio do caminho porque o ambiente hormonal estava hostil. O verdadeiro epicentro do problema costuma estar alguns centímetros ao lado: no metabolismo. A peça central desse quebra-cabeça geralmente é a resistência à insulina. Imagine que a insulina é a chave que abre a porta das suas células para o açúcar entrar e virar energia. Na mulher com SOP, essa fechadura costuma estar emperrada. O corpo, na tentativa de resolver o problema, produz ainda mais insulina. O problema é que esse excesso de insulina vai direto para os ovários e dá uma ordem errada: “produzam mais testosterona”. É aqui que a cascata começa. O excesso de hormônios masculinos (androgênios) bloqueia a ovulação, causa acne, queda de cabelo e o surgimento de pelos em locais indesejados. É um ciclo que se retroalimenta. Lembro-me de uma paciente, a Julia, que chegou ao consultório exausta. Ela já tinha passado por três médicos que apenas lhe prescreveram anticoncepcionais para “regular” o ciclo. O problema é que a pílula mascara o sintoma, mas não mexe na engrenagem metabólica. A Julia sentia um cansaço crônico e uma vontade incontrolável de comer doces à tarde — sinais clássicos de que a glicose dela não estava sendo bem aproveitada. No caso dela, em vez de focar apenas no hormônio, trabalhamos a base. Ajustamos a rotina de exercícios — priorizando o ganho de massa muscular, que é o melhor “consumidor” de glicose que temos — e organizamos a alimentação para evitar picos de insulina. Em seis meses, os ciclos dela, que vinham a cada 60 dias, voltaram ao normal sem a necessidade de hormônios sintéticos. Claro que cada corpo é uma sentença. Existem mulheres com SOP que são magras, outras que têm exames de imagem normais, mas sofrem com o excesso de pelos. Por isso, o diagnóstico é clínico e individualizado. Não existe uma receita de bolo. O tratamento pode envolver desde mudanças de estilo de vida até o uso de metformina, inositol ou, sim, contraceptivos, dependendo do objetivo da mulher naquele momento — seja ela querer engravidar ou apenas controlar a pele. O que precisamos entender é que a SOP é uma condição para a vida toda, mas não precisa ser um peso. Ela exige que a mulher se torne uma expert em si mesma. É olhar para além da balança e do espelho; é entender como seu corpo responde ao estresse, ao sono e ao que você coloca no prato. Se você sente que seu ciclo está bagunçado ou que seu corpo está enviando sinais estranhos, o primeiro passo não é o desespero, mas a investigação. Olhar para o metabolismo é o caminho mais curto para fazer as pazes com os seus hormônios. Afinal, saúde feminina é sobre equilíbrio, e equilíbrio a gente constrói ajustando uma peça de cada vez.